*Texto de Rubens Pileggi

Jenny Holzer, da série Sobrevivência, 1987. Proteja-me daquilo que eu quero. Intervenção nas ruas de São Francisco, EUA. Ocupação de espaços físicos e mentais.

…Superado o problema da arte-objeto, o protagonista da experiência estética passa a ser o ambiente, enquanto espaço em que os indivíduos ou grupos sociais se inserem e vivem… muitos artistas, …procuram ambientes que demandam uma interpretação, um esforço aplicativo, uma vontade de estabelecer relações.
GIULIO CARLO ARGAN, A Arte moderna, pags. 587 a 590

Tópicos em desenvolvimento:

1. Território é espaço. Espaço é matéria. Logo, a colocação da matéria no espaço cria limites territoriais. Cria intervenções. E ela não pode ser desvinculada de seu conteúdo ideológico.

2. Lugar é espaço ocupado. O lugar cria sentido à idéia de espaço. Definições como dentro e fora são apenas convenções que tanto podem facilitar uma compreensão prática de localização, quanto servir de ideologia, para justificar segregações.

3. Arte pública não é obra pública. A presença de objeto, escultura e a idéia de monumento vinculadas ao estatuto de obra de arte, criando arte de encomenda para inaugurar edifícios e obras públicas, não condizem com o caráter crítico, que é próprio deste tipo de manifestações.

4. Pensamento também é matéria.

5. O pensamento formal deve acompanhar a linguagem, e aqui, ele não se resolve a priori. Eis algumas questões orientadoras:

A. Monumentos precários – Retomada da idéia do grafite dos anos 80, que ficou parado na técnica do spray. Precariedade formal e material. Não há mais necessidade de obra de arte como algo durável;

B. Monumental mínimo – É a partir do que a obra propõe que se coloca a relação de entendimento do espaço. Portanto, o ponto de vista da discussão é a partir do trabalho acontecendo no espaço, sua contextualização. Uma pequena intervenção em local específico pode ser mais eficiente do que uma enorme peça que não diz nada para ninguém, que fala só para si própria;

C. Ação urbana, social e imanente – Ocupação de territórios em tensão, regiões de conflito ou esgarçamento (social, patrimonial), de fluxos (centro-periferia);

D. Xamanismo – Abolição da fronteira entre o eu e o mundo. Conectando o mundo dos excluídos (fumadores de crack, mendigos, sem-tetos) ao mundo dos socialmente incluídos, através de rituais simbólicos, como por exemplo o são as lavagens de escadarias de igrejas, jogar copos de água limpa no rio Tietê, etc.;

E. Ação política – Uma arte fundamentada em atitudes. Formas novas exigem novos modos de operação com a realidade. Não há como evitar o confronto;

F. Vínculos -– Cultura como manifestação artística também fora dos circuitos de galerias e museus; cultura como capacitadora de inclusões e incorporações de contrastes; cultura como processo de contaminação;

G. Memória – Uma das definições de monumento segundo o Dicionário Aurélio;

H. O pensamento como matéria – As fronteiras diluídas entre os campos de conhecimento, ou seja, aonde começa a ciência e termina a filosofia? Qual a fronteira entre a arte e a religião?

I. Diluição da noção de autoria. A idéia de autoria é recente e seu caráter não condiz com novos modos de produção como os operados hoje, seja na música, com o hip hop, ou na internet, onde cada um adiciona o que quiser à informação, ou mesmo nas questões sociais comunitárias, diante das exigências de mercados globais, como associações, cooperativas, etc.. A idéia de participação e a
possibilidade de interferência no processo da criação artística, faz com que a interação se torne a chave do trabalho.

*Texto extraído do site Rizoma (www.rizoma.net)