Poro. Perca tempo, 2009

*Texto de Isabel Carvalho, publicado na Revista Concinnitas junho de 2011 – ano 12 n.18 – Publicação do Instituto de Artes da UERJ

A construção de um pensamento voltado para o cotidiano das cidades se desenvolve com poéticas ações de um coletivo chamado Poro. Suas intervenções indicam outras práticas e espacialidades, como sugere o nome de um trabalho. Ler, ver e entender os trabalhos do Poro.
Espaços urbanos, interferências, deslocamentos.

De espaços a espaços, em faixas e sutis folhas de ouro, descobrimos o Poro. Poéticas ações que se desdobram em meio ao comum, mas ao mesmo tempo distante, olhar na cidade. Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos é tão somente mais uma poesia vislumbrada pela poética de nove anos de trabalho da dupla Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada. Trata-se de um coletivo de Belo Horizonte que vem desenvolvendo suas ações em diferentes espaços públicos de grandes cidades brasileiras.

O livro reúne trabalhos do Poro, como um catálogo, entremeados por textos de autoria de amigos da dupla. Como veremos adiante, o registro está atrelado diretamente ao trabalho do coletivo. As ações são normalmente publicadas no site. Nesse caso, o registro também se fez em forma de livro. Os textos selecionados descrevem e discutem alguns trabalhos e traçam os conceitos e questionamentos envolvidos nas intervenções.

Essas intervenções do Poro, segundo André Brasil,1 são insignificâncias, ou seja, deslocamentos mínimos. As insignificâncias, como o próprio nome diz, são as intervenções sutis e anônimas que, ao ocupar o espaço urbano, passam despercebidas; são atos de profanação. Com base em Giorgio Agamben,2 o autor observa que à medida que uma coisa é sacralizada ela se torna alheia e distante de qualquer intervenção do homem. Ora, se a sacralização é aposta à profanação, em vez da retirada há, portanto, a restituição, que se dá por meio do uso negligente, que é o que nos “religa aos objetos que foram abstraídos por nós por meio de um sacrifício”.

Existem em nosso cotidiano slogans e palavras de ordem espalhados pela cidade; são coisas comuns que foram ressignificadas pelo Poro. As frases de impacto e os slogans se mantêm, mas visando atingir a sociedade de forma diferente daquela que a mídia e o marketing o fazem. Em outras palavras o Poro deseja fazer as pessoas pensarem, apropriando-se dessas faixas, papéis no dia a dia, mas ressignificando e atribuindo outros valores que não os associados à mídia e ao marketing. Perca tempo (2010), Contra palavras de ordem (2006) e Faixas de antissinalização (2009) são trabalhos que fazem referência às questões colocadas.

Dando seguimento aos textos, Anderson Almeida3 lança suas memórias da vivência de dois dias da interferência Azulejos de papel, mas sem deixar de observar os intrigantes questionamentos que os trabalhos do Poro geram. O texto é uma lembrança de 2009, quando acompanhou os artistas no Verão, arte contemporânea (VAC) em Belo Horizonte. Percorreram os bairros da Lagoinha, Concórdia e Floresta colando os azulejos de papel em muros e construções. Foi de fato experiência única acompanhar os artistas e vivenciar ali o processo artístico das intervenções. Segundo ele, “os azulejos não transformavam os lugares em algo que não eram, antes os complementavam”.

A efemeridade desses singelos azulejos, de acordo com Daniela Labra,4 resgata a memória urbana. Para a autora, a realidade do agitado cotidiano nas cidades, que passa despercebida para a maioria de nós, ganha potencial poético nas intervenções, com simplicidade e desprendida de quaisquer espetacularizações. Nessas cidades-máquinas, expressão utilizada por André Mesquita,5 maximiza-se a “impessoalidade pela individualidade”, e é nesse contexto que o Poro vem denunciar as injustiças sociais e incitar a mudança nas relações que mantemos com o urbano. Segundo ele, desmaterializar e enfatizar essa participação do espectador são propostas atualizadas pelo Poro do conceitualismo da América Latina, adaptadas, no entanto, para nossos objetivos. Além disso, o autor afirma que o compartilhamento dos trabalhos na rede socializa os saberes e possibilita que outras pessoas transformem a realidade que as cerca.

Daniel Toledo e Luis Carlos Garrocho6 pontuam, nas intervenções do Poro, os regimes de corte, que são dois, segundo eles: um significante (através das representações) e outro ‘assignificante’ (que foge às representações). O Poro também produz imagens que não pertencem ao dia a dia das cidades. Portanto, operam cortes que se fazem assignificantes, primeiro sobre as instituições de arte – a relação com o ambiente da galeria – e, segundo, sobre um corte nas cidades e situações do cotidiano, para fazer-nos atentar para o efêmero, seja por meio de peixinhos em um poste suspenso ou em tiras de papel arremessadas ao vento.

Poro. Azulejos de Papel, 2007-2011

Outra questão colocada pelos autores diz respeito à efemeridade da maioria das intervenções do Poro. São outros os cortes. Afirmam que “não é o espaço das galerias que tornará ‘mais durável’” a arte do coletivo. Desenvolvendo um registro – fotográfico e documental –, a obra passará a ter esse caráter durável e poderá ser vista e reproduzida por outras pessoas. Um próximo corte se estabelece na questão da autoria ou, melhor, do anonimato. Referem-se ao fato de as pessoas não saberem que por detrás da obra está a assinatura de Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada!

Com base na arte expandida de Simon O´Sullivan,7 os autores também levam em conta nas intervenções quatro pontos fundamentais: o trabalho colaborativo (prática participativa, a interação do espectador), a dimensão ética (experimentação, as pessoas são afetadas pelos trabalhos), a dimensão política (dupla crítica: ordem capitalista mundial, individualismo e estratégia de desconstrução dos regimes de significação; uma política para as pessoas agirem de outra maneira – outros modos de vida), e as virtualidades (o que é possível, mas não foi realizado; trabalhos que materializam o que já acontece, o real, embora invisível a nossos olhos). Novamente aborda-se a questão da ressignificação. O Poro se apropria de elementos cotidianos para estabelecer essas novas relações com faixas, cartazes e panfletos. Os trabalhos podem ser vistos por um transeunte como um acaso poético do dia a dia e não como um trabalho artístico.

Em Arquiteturas Adesivas, Renata Marquez e Wellington Cançado utilizam Azulejos de papel e Interruptores para poste de luz para assinalar questões referentes ao público e ao privado.

Poro. Aquários suspensos, 2007

Dizem os autores que as imagens evocadas dos azulejos mimetizam essa autodestruição da cidade; percebe-se que no espaço urbano há a invasão do “poder público sobre o domínio privado”. Nessa cidade os azulejos revestem a destruição e o abandono; tornam-se confusas as limitações entre o público e o privado. Já os interruptores de papel servem a princípio para apagar ou acender a luz do poste, mas o que o Poro promove é uma aproximação entre objetos que pertencem ao espaço privado (o interruptor) e ao espaço público (o poste). Há uma diferença “fictícia e burocrática” entre o público e o privado; não faz diferença o poste estar na rua se ele não ilumina a rua e sim o apartamento do segundo andar. Na realidade o interruptor ‘transfere’, e não desloca o poder público (das prefeituras) para as pessoas. A intenção dessa intervenção é propor a transferência, a alteração do poder, possibilitando a autonomia dos cidadãos e a interação coletiva. Dessa maneira, os dois trabalhos não têm a pretensão de funcionar como aquilo que de fato representam. Não se trata de criar coisas, mas de fazer uma proposta. O Poro, nesses dois trabalhos, transforma a rua em extensão doméstica e a casa em intenção pública.

E não só de textos em prosa se faz o livro do Poro. As poéticas ações só ficam completas com “Inúmero Poro”, poema de Ricardo Aleixo, que consegue transmitir a mensagem do coletivo e dos textos aqui citados, nessa outra forma. O comum do cotidiano transforma-se em incomum. O Poro utiliza faixas com formatos e materialidades semelhantes aos daquelas que vemos rotineiramente nas ruas. Com inscrições como “Perca tempo”, “Viva a borda desloque o centro”, essas faixas surgem carregadas por duas pessoas que se posicionam diante dos automóveis, parados, quando o sinal de trânsito fecha. Ao voltar a ficar verde a luz do sinal, as faixas são recolhidas, e o trânsito flui normalmente. Terão as pessoas dentro dos automóveis reparado nas faixas? Provável. Mas elas terão entendido suas mensagens? Talvez. Terão refletido? Algumas sim, outras não.

“(…) disposição para extrair
do comum
o incomum
e
antes que o
sinal verde
novamente se abra,
devolvê-lo
(o comum)
ao lugar que ésó dele (o comum) (…)8”

Um só livro reuniu os registros de intervenções efêmeras, de exposições de fotos em galerias e de textos valiosos para o aprofundamento dos estudos sobre coletivos. Essa perfeita combinação de textos e imagens/descrições dos trabalhos permite vivenciar as experiências do Poro. Mesmo que nunca presenciemos as ações, um grande deslocamento acontece: questionar tudo o que está a nosso redor, até as sutilezas, pois nelas estão os verdadeiros desafios das cidades.

 

Isabel Carvalho (UERJ, Rio de Janeiro, Brasil) é graduanda em história da arte pela UERJ, bolsista Pibic do projeto “Arte e história na contemporaneidade: implicações políticas” e atua na pesquisa de coletivos brasileiros. / isabel.qcarvalho@gmail.com

NOTAS

  1. Brasil, André. “Insignificâncias: a política nas intervenções do Poro” in Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos. São Paulo: Radical Livros, 2011, p. 33-36.
  2. Citado por Brasil, 2009.
  3. Almeida, Anderson. “Azulejos de papel” in Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos. São Paulo: Radical Livros, 2011, p. 51-56.
  4. Labra, Daniela. “Poro: Poesia para alguém” in Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos. São Paulo: Radical Livros, 2011, p. 97-98.
  5. Mesquita, André. “Sobre a arte das pequenas coisas” in Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos. São Paulo: Radical Livros, 2011, p. 105-111.
  6. Toledo, Daniel e Garrocho, Luis Carlos. “Poro: na linha dos olhos” in Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos. São Paulo: Radical Livros, 2011, p. 157-163.
  7. Citado por Toledo, Garrocho, 2011.
  8. Aleixo, Ricardo. “Inúmero Poro” in Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos. São Paulo: Radical Livros, 2011, p. 121-123.

Texto originalmente publicado em: http://www.icons4u.com.br/concinnitas/texto.cfm?id=17
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