(clique na imagem para ampliar)

Leitura obrigatória: Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos – ações poéticas do Poro

*Texto de Hamilton Faria, publicado no Le Monde Diplomatique, Edição 45 – Abril 2011

As cidades cada vez mais são lugares não apenas do desencanto e das desigualdades, mas também do encantamento e de novas possibilidades. É isso que nos mostra o Grupo Poro por meio de seu trabalho político-cultural-poético e em suas intervenções expostas ao longo do livro “Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos“.

Camisetas distribuídas com a frase “reduza a velocidade”, plantação de árvores, ação “Perca tempo” (o grupo abre uma faixa nos cruzamentos e distribui panfletos com “10 maneiras incríveis de perder tempo”). Pássaros de papel lançados no céu, sugestão de arrancar a etiqueta colada nas roupas, entre outras, formam um conjunto de ações criativas realizadas em várias cidades do país por um grupo com consciência da linguagem poética.Acompanhar o caminho das formigas, fazer listas de coisas improváveis, procurar desenhos em nuvens, ouvir histórias, são algumas das formas de se “perder tempo”. Além das bem-humoradas sugestões, fica a forte poética para as cidades enlouquecidas do Time is Money. É o artístico como instrumento da política? A política como legitimação social da arte?

Decididamente, não. A política aqui está presente pela capacidade de inverter paradigmas, símbolos caros ao capitalismo e provocar mudanças. Arte e política andam juntas, não para politizar simplesmente a cidade, mas para potencializar ao máximo suas poéticas, criar potências a partir de um cotidiano árido apresentado pelas metrópoles.

Há nessas intervenções um cotidiano emancipável, pois nem tudo será assim eternamente, domínio de uma comunicação que mercantiliza a alma. Aí a poesia inaugura um mundo que se espanta, antes da palavra, antes da racionalidade, tempo arquetípico.

Um livro que necessariamente precisa ser lido para apurarmos a nossa comunicação poética, que toca com delicadeza pontos de conflito e serve também como sugestão a outros horizontes. Uma proposta de reencantamento do mundo, pois como poetizava Modigliani, “o real dever do artista é salvar o sonho”.

Hamilton Faria – Poeta, autor de “Diavirá” e “Estações”, professor universitário e coordenador de cultura do Instituto Pólis
Texto originalmente publicado em: http://www.diplomatique.org.br/resenhas.php?edicao=45
Para adquirir o livro e receber em casa, acesse: http://poro.redezero.org/livro/