Texto de André Brasil*
publicado originalmente no livro “Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos” (2011)

Aquários suspensos (Poro, 2007)

Aquários suspensos (Poro, 2007)

O Poro são dois. E são vários. Suas intervenções são porosidades no espaço urbano: elaboradas, delicada e, persistentemente, ao longo destes sete anos[1], parecem feitas por muitos e por ninguém. Elas se criam em uma zona breve entre o fortuito e o autoral: são experiências anônimas que deixam vestígios, mostram que, ali, circunstancialmente, alguém realizou um ato de invenção, movido pelo desejo de poesia.

As intervenções urbanas do Poro são insignificâncias: deslocamentos mínimos, acontecimentos sutis, no limite entre ver e não se ver. Por isso, as experiências da dupla parecem tão inadequadas, alheias e avessas aos circuitos do espetáculo e das instituições. Seu território é irrecusavelmente o cotidiano, o lugar onde, para Hans Ulrich Gumbrecht, emergem as “pequenas crises” que constituem o que chamamos de “experiência estética” [2].

As insignificâncias são gestos ordinários que circulam anonimamente e que se percebem em uma frequência menor – bem abaixo da estridência da mídia, um pouco acima do rumor indistinto da cidade: enxurradas de letras pelos bueiros, folhas de ouro nas árvores, jardins de plástico na aridez do bairro, azulejos portugueses colados aos muros, fragmentos coloridos no cinza do concreto, interruptores de luz adaptados aos postes, rolos de papel branco como traços ao vento…

Diante dessas insignificâncias, nos lembramos logo da parábola benjaminiana que nos é narrada por Giorgio Agamben:

Um rabino, um verdadeiro cabalista, disse um dia: para instaurar o reino da paz não é necessário destruir tudo e dar início a um mundo completamente novo; basta apenas deslocar ligeiramente esta taça ou este arbusto ou aquela pedra, e proceder assim em relação a todas as coisas.[3]

Esses deslocamentos mínimos são gestos de profanação[4]: profanar, escreve Agamben, é o movimento aposto ao de consagrar (sacrare): se a sacralização é uma espécie de retirada do mundo, que se abstrai de nós, tornando-se alheio, distante da intervenção dos homens, a profanação é, em via inversa, sua restituição, por meio do uso. O uso, nos diz o autor, deve ser, nesse caso, negligente, livre, distraído. A negligência é o que nos religa aos objetos que foram abstraídos de nós por meio de um sacrifício (em nosso caso, a abstração suprema do capitalismo avançado de consumo).

Em uma leitura equivalente e complementar, De Certeau se refere a uma astúcia do uso, a reutilização “desabusada”, desautorizada, ocasional, dos objetos, dos saberes, dos espaços e das linguagens. Essas astúcias próprias do cotidiano formam a rede de uma de anti-disciplina, que se contrapõe às normas e às estratégias[5].

Mas, na perspectiva de uma política do cotidiano, seria preciso pensar o percurso do Poro para além do âmbito da arte dita politicamente engajada. Porque, aqui, não se trata exatamente de utilizar o artístico como instrumento da política, tampouco de utilizar a política como forma de legitimação social da arte. Se a experiência do Poro é política, ela o é em uma dimensão mais ampla do que esta de viés meramente instrumental.

Como escreve Jacques Rancière, há uma gênese estética que a arte compartilha com a política: ambas intervêm na partilha que, historicamente, fazemos do nosso mundo sensível. Arte e política são maneiras de se recriar as “propriedades do espaço” e os “possíveis do tempo” [6], as condições históricas a partir das quais dividimos e percebemos o que é ruído e o que é palavra, o que é visível e o que é invisível, os que fazem parte da cena ou dela estão excluídos. É por isso, nos diz ainda Rancière, que “as artes nunca emprestam às manobras de dominação ou de emancipação mais do que lhes podem emprestar, ou seja, muito simplesmente, o que têm em comum com elas: posições e movimentos dos corpos, funções da palavra, repartições do visível e do invisível.” [7]

Em uma leitura bastante particular e parcial do trabalho do Poro, diria que várias de suas intervenções são políticas não porque operam no domínio dos enunciados, mas sim naquele do enunciável. O primeiro é o lugar do sentido, dos slogans e das palavras de ordem. Intervir aí significa contrapor, irônica ou literalmente, os nossos slogans e palavras de ordem àqueles da mídia e da publicidade. O segundo é o domínio do sensível, no qual se estabelecem os limites entre o que é ou não possível de ser dito e visto em determinado momento histórico. Intervir aí significa atuar no sensível da cidade, em seu horizonte de possibilidades, nas condições que tornam possíveis esta ou aquela imagem, este ou aquele enunciado.

A existência de um domínio do enunciável, para além daquele dos enunciados, é o que nos permite recusar o pressuposto de que a comunicação deve ser o fim de toda experiência artística e política: há vida sensível para além da comunicação e é ali que reencontramos, ou melhor, que reinventamos nosso possível. A força de algumas intervenções do Poro deriva, justamente, da negação de que o cotidiano esteja totalmente submetido ao domínio da comunicação – dos slogans e das palavras de ordem – e da afirmação poética de que o sensível da cidade pode ser, eventualmente, reconfigurado, reinventado, alargado.

Sim, sabemos como alguns trabalhos do Poro ainda se situam no campo da comunicação, assumindo, conscientemente, o embate em torno das palavras de ordem e dos slogans. Experiências como Propaganda política dá lucro!!! (2002, 2004 e 2008), FMI (desde 2002), Por uma cidade sustentável (2004) e Imagine (2004) são intervenções no domínio dos enunciados, e sua particularidade está na opção pelas mídias populares, de intensa circulação no cotidiano das cidades.

Mas em outras experiências, de viés mais poético e sutil, é no âmbito do enunciável – o sensível partilhado pela cidade – que se intervém. Há, por exemplo, em certos trabalhos uma espécie de comunicabilidade antes da comunicação[8]: a cor antes do cartaz (Imagem cor, 2003), as letras antes das palavras (Enxurrada de letras, 2004), o eventual do traço antes do desenho (Desenhando no vento, 2005). Em outros exemplos, a atenção a essa comunicabilidade anterior à comunicação se produz por uma intervenção mínima – insignificante – capaz de reconfigurar, efemeramente, todo o sensível em torno: folhas pintadas de dourado devolvidas às arvores (Folhas de ouro, 2002); azulejos de papel colados ao muro no lugar do anúncios (Azulejos de papel, desde 2008);  adesivos de interruptores para postes de luz (2005).

Em Aquários Suspensos (2007) – obra que, sem pudor, elejo como de minha predileção –, o gesto é de uma simplicidade extrema. Lustres redondos dos postes de iluminação de uma praça ganham adesivos de peixes coloridos. Os peixinhos só serão percebidos por aqueles que desaceleram o passo e olham, consciente ou displicentemente, para cima.

Ali, nessa suspensão – uma pequena crise! – não há slogans, não há legendas, não há enunciados, mas um deslocamento mínimo na ordem do enunciável. Uma transformação se opera, sutil e silenciosamente, aquém e além de toda comunicação: o lustre é transfigurado em aquário. Suspensos, os peixes se tornam pássaros. Os pássaros, peixes. Eles são rodeados de mariposas. Os pedestres se movem lentamente, parecem caminhar em um mundo aquático. Quando a luz se apaga, a noite na praça é um mar profundo que abriga peixes reluzentes.

A manhã retorna e a cidade se transforma, então, em um imenso móbile, sustentado pelos fios de luz.

Continuemos a proceder assim em relação a todas as coisas…

 

*ANDRÉ BRASIL é professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais, com doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Realiza curadorias e escreve ensaios sobre cinema e artes visuais. Colabora com a Revista Cinética.


[1]. Texto escrito em 2009, quando o Poro completou sete anos de atuação.

[2]. GUMBRECHT, H.U. “Pequenas crises: experiência estética nos mundos cotidianos”. In: Guimarães César; Leal, Bruno; Mendonça, Carlos (Orgs.). Comunicação e experiência estética. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.

[3]. AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Trad. António Guerreiro. Lisboa: Editorial Presença, 1993. p. 44.

[4]. Idem. Profanations. Trad. Martin Rueff. Paris: Éditions Payot & Rivages, 2006.

[5]. DE CERTEAU, Michel.  L’invention du quotidien – 1. Arts de faire. Paris: Gallimard, 1990. Publicado no Brasil pela Editora Vozes com o título A invenção do cotidiano – 1. Artes do fazer.

[6]. RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Trad. Mônica Costa Netto. São Paulo: EXO Experimental/Editora 34, 2005. p. 17.

[7].  Idem. Ibidem. p. 26.

[8]. Ver AGAMBEN, Giorgio. Means Without End: Notes on Politics. Trad. Vincenzo Binetti e Cesare Casarino. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2000.