Texto de Anderson Almeida*
publicado originalmente no livro “Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos” (2011)

Azulejos de papel (Poro)

Azulejos de papel (Poro)

Imagens de azulejos impressas em papel jornal são
coladas em muros de casas e lotes abandonados,
ou casa de amigos e também distribuídas para que
as pessoas façam suas próprias instalações.

Poro

 

Apelando para a memória amarelada

Às vésperas do Carnaval de 2009, o Poro participou do Verão Arte Contemporânea (VAC), em Belo Horizonte, com a intervenção Azulejos de Papel. Como tive a grande felicidade de ser convidado a acompanhar o trabalho, retribuo através deste testemunho. E, por não ser do meio das artes, toco essas peças com cuidado, afinal são azulejos, mas com alguma suspeita familiaridade, são de papel.

Anoto que, para lembrar com efetividade poética, esquecer um pouco teve o efeito de arejar a lembrança desses dois fins de semana. O que amarela na lembrança, mesmo que imediato ou sequer acontecido, é o que o poeta reporta – e que não pode o repórter. Solto do lembrado, o acontecido se desinibe como um adolescente longe dos pais. E, como os azulejos e os próprios muros onde eles estão ou estavam, estas recordações nem tão distantes também já sofreram seus três meses.

No primeiro dia, logo cedo o Marcelo me enviou um torpedo: “Ei Anderson, não se esqueça de levar um caderno de anotações…” Até levei, mas a verdade é que o deixei de lado assim que entrei no carro.

Contato

Os dois integrantes do Poro me buscaram em casa sob uma chuvinha lenta e morna que nos acompanharia sempre. Brígida, com o charme displicente e seus olhos verde-lagoa; Marcelo, que abandonara recentemente o cabelo comprido, agora com seu cavanhaque. Como os dois tinham fome, nos dirigimos à padaria mais próxima, enquanto eu terminava de lanchar uma cerveja que trazia de casa. Engraçado foi que estávamos bem tranquilos, tomando nosso café da manhã, quando a fachada da padaria começou a desabar e não cessou de cair enquanto não fomos embora, ressabiados. E antes de partirmos, ainda gastamos um instante na calçada oposta, contemplando aquele cenário de filme-catástrofe.

Com a fome aplacada, seguimos caminho. A dupla preferiu se concentrar nos tradicionais bairros Concórdia, Lagoinha e Floresta. Essa região da cidade é uma das poucas onde certa atraente maturidade pode ser apreciada na ainda jovem BH. As casas passavam pela janela do automóvel como num filme da Novelle Vague. Brígida Karenina, Marcelo Belmondo, François Anderson.

No bairro Concórdia, fora as janelas sonolentas, um bêbado também acompanhou o trabalho e prometeu defendê-lo dos vândalos e pichadores do bairro. E sempre que chegávamos a algum lote ou casa abandonada, alguém se aproximava, saído sabe-se lá de que canto, torcendo para que fôssemos compradores dos imóveis.

No bairro Lagoinha, tentamos contatar um casal de amigos que “por sorte” morava próximo a um dos muros eleitos, mas como os celulares das duas metades estavam desligados na tarde preguiçosa, a mensagem – a não mensagem – estava mais do que dada, e deixamos apenas pistas do tesouro através de um sms.

No Floresta, fomos à nascente da Avenida Jacuí, uma longa e movimentada via da cidade, e percebemos que naquele ponto ela ainda não era a Jacuí que conhecíamos. Apenas um quarteirão isolado e quieto entre a linha do metrô, alguns prédios e os fundos de um grande imóvel, do qual ondas de ausência emanavam até nós.

Andávamos sempre quase sós sob a garoa domingueira. Umas poucas janelas piscavam preguiçosas ao vê-los colando cores à face das vizinhas. E como a cidade parecia ser inteira nossa rua, onde fôssemos nos sentíamos vizinhos. Um gigantesco condomínio no qual não se firmava a dúvida “se éramos nós que estávamos nessa prisão”.

E ao fim desse dia de intervenções, voltamos para Santa Tereza e seus bares e sua tradição, à qual as nossas pessoais se misturam. Optamos pelo Baianeira, onde classudos acarajés acompanharam a cerveja extra e o também extra bate-papo sobre os mundos: o mundo editorial e da arte, da política e do dinheiro, nosso mundo e nós. Nossa sagrada mesa botequeira, que nos serve de praia, de sertão e de ágora.

Na semana seguinte conheci o coletivo GIA, de Salvador (BA), todos gente de primeira qualidade, como diria meu pai. Vieram para também participar do VAC e nos acompanharam nesse segundo dia. Do terminal da Álvares Cabral, onde fomos buscá-los, seguimos espremidos no carro. Enquanto comentávamos a façanha que cometeram ao deixar o sol de Salvador naqueles começos de Carnaval e vir para a chuvosa Belo Horizonte, várias sombrinhas coloridas apareciam nas calçadas.

Lanchamos dessa vez numa padaria mais sofisticada (tínhamos visita) e nos encarregamos de causar nossas próprias catástrofes, como cafés derrubados e frases infames nas mesas elegantes. Depois passamos na casa da Brígida para deixarmos o material do GIA e tive o prazer de ver novamente o Monólito de Brigite: pequena geladeira que parou de crescer à altura da minha barriga e estava sempre coberta por desenhos, lembretes, adesivos, poemas, ímãs, nuvens, ferramentas.

Nessa segunda rodada, todos nos revezamos na fixação dos azulejos com a cola que parecia uma vitamina de aveia sem banana ou um suco de chapisco. Parecia saborosa, mas não arrisquei. Fizemos algumas fotos engraçadas, outras belas e algumas engraçadas e belas.

E quando vi meus amigos com seus azulejos de papel, molhados de cola e chuva, caçando espaço entre outras belezas nas superfícies verticais, lembrei-me da mensagem sobre o caderno de anotações e me ocorreu imediatamente o Contato, filme com Jodie Foster baseado em livro homônimo do Carl Sagan. Na sequência em que a cientista se emociona ao ficar frente a frente com um “evento celeste”, ela só consegue dizer: “Não tenho palavras. Deviam ter enviado um poeta.” Foi o que eu quase disse a eles.

Curioso que me lembro perfeitamente do sol se apoiando em nossos ombros naqueles dias. E fico aqui tentando flagrá-lo em algum parágrafo.

A Interação

Eu não lembrava que todas aquelas casas que aprecio, quando caminho pela cidade, estavam abandonadas e não lembrava também que seu desamparo, entretanto, não é total, submissas que estão à inconstância de seus amantes.

A atração que essas construções abandonadas exercem sobre nós provavelmente acontece porque a beleza se deposita sobre elas junto com o pó e o musgo. O que existe dentro de um tempo particular atrai acúmulos. Por seu lado, esse trabalho do tempo cedeu elegância aos azulejos quando os vestiu com sua coleção de imprevistos, como fez antes aos muros e casas.

Os azulejos não transformavam os lugares em algo que não eram, antes os complementavam. Olhados de perto e com atenção podiam deixar de ser azulejos, deixar de ser papel. Passavam a ser escama, muro, galáxia. O mesmo carnaval das sombrinhas de frevo sob a garoa. Essas cores não desapareceriam quando se apagassem – tanto que as trago comigo.

Por serem de papel, os azulejos já começavam a ser transformados pela chuva e pela própria cola no momento em que eram fixados. Reproduções que se tornam matrizes. Originais que se transformam. Daí que essa intervenção, como quase todas, só se conclua quando registrada. No caso, pela fotografia, que se torna um novo original. Algumas fotos dos azulejos colados, tiradas pelos próprios criadores, me disseram um pouco mais do olhar que eles usavam enquanto colavam. Entendi através delas belezas que eu talvez não alcançasse sozinho. Muros que parecem chão. Azulejos que parecem de papel.

Essa foi uma intervenção discreta. Mas quem faz um poema, uma música, um objeto artístico “qualquer” nunca faz “pouco”, pois dá ao mundo de graça (não há dinheiro que pague) a dádiva de recordar a cada ser humano que ele pode ser mais do que apenas um elo na continuidade da espécie.

Alguns muros já estavam cheios de testemunhos dessa aventura, quase sempre noturna, que nós vivíamos à luz de um dia calmo: deixar na cidade a marca pessoal de quem está nela. Essas artes pioneiras, em geral grafites, mais os azulejos, testemunhavam nas paredes um olhar, uma intenção humana, como as pinturas rupestres. Quando ficarmos distantes no passado, talvez os arqueólogos venham a descobrir os azulejos de papel que um dia estiveram colados ali, sobre o muro que ali houve, na cidade que um dia existiu.

A intervenção continua.

Nem todo papel é de parede.

Um amarelo muro

Marcelo talvez não se lembre, mas o primeiro azulejo de papel aconteceu há muitos anos. Embora eu não saiba de qual dos integrantes do Poro partiu a ideia desse trabalho, penso não cometer nenhuma injustiça ao imaginar que nesse dia distante nasceu nele o projeto e peço licença à Brígida, grande amiga, para lembrar um momento em que ainda não a conhecíamos. Tínhamos dezesseis anos.

Num dia a que, contra nossa vontade, acabavam de dar à luz, depois de virarmos a noite percorrendo a pé trilhas de asfalto, o olhar dele via e fazia saltarem belezas da pele suja da cidade. Uma a uma ele as mostrava a mim, apontando e decifrando. A verdade é que nunca vimos muros e paredes como obstáculos entre nós e o outro lado, mas “objetos” interessantes por si mesmos. E quanto mais essa superfície vertical estivesse trabalhada pelo tempo, movida de sua artificialidade inicial, mais nos atraía. Não é à toa que outros trabalhos do Marcelo e do Poro emulem superfícies, é que não tomam a parede apenas por um cabide.

Nessa época, se “escritor” era a palavra que me traduzia uma espécie de ápice em termos de ser humano e Marcelo já criava vigorosamente com o olhar, ainda assim não nos conduzíamos para dentro de nomes. Explorávamos uma liberdade maior que a de apenas ir e vir sem, porém, sair de si. Liberdade de pensar o que não se sabia que havia para ser pensado e, entretanto, estava bem ali, à mão, para quem o quisesse inventar (e essa proximidade, essa familiaridade estrangeira sempre fora central). Fazia muito sentido para nós pensar que as pessoas, os comportamentos, a “civilização” eram como eram apenas porque eram, não porque não pudessem ser diferentes. Nada seria absoluto, e a diferença que víamos e que “os outros” ignoravam nos fascinava ainda mais por nos parecer real.

Pois nesse dia recém-nascido, quando já quase chegávamos a sua casa, desenhando traçados inéditos no bairro, protegidos por nossa ousadia inocente, nos apaixonávamos por detalhes desdenhados das casas, pelas formas assumidas pelos sacos de lixo, por objetos jogados na inebriante Belo Horizonte que há sob Belo Horizonte… Enfim, ao final de uma noite que parecia ter durado toda uma existência humana, tão grande foi em eletricidade vital, mais uma turbina na base de ser quem seríamos, ao ladearmos um monte de lixo sobre o passeio, ele parou, notando algum cisco na harmonia esparramada do lixo. Segui seu olhar e parei também. A princípio, nada dissemos, mas logo transpusemos essa epifania silenciosa. Falávamos nosso próprio atalho, andávamos com nossos próprios olhos e, numa explosão delicada, depois de apontar para o informe objeto quadrado, sem massa, pousado no muro, ele soltou:

– Você viu aquele amarelo ali?!

 

*ANDERSON ALMEIDA, graduado em Letras, é poeta e prosador. Autor do livro Maquete em ruínas (no prelo). Tem poemas publicados em revistas e na Internet.