*Texto de apresentação do livro “Intervalo, respiro, pequenos deslocamentos” (2011)
escrito por Brígida Campbell e Marcelo Terça-Nada!

Azulejos de papel (Poro)

Azulejos de papel (Poro)

Entendemos que a arte é uma forma de criar relações com o mundo a partir de signos, gestos e/ou objetos. Com esta noção, lançamos nosso olhar para o espaço urbano, onde, desde 2002, desenvolvemos nossos projetos. A cidade é um território fértil para nossas ações. Buscamos estabelecer relações diretas com a cidade e todo seu universo comunicacional e simbólico, ampliando e flexibilizando o significado e o entendimento sobre arte e construindo situações que fogem do uso rotineiro do espaço público.

Frente às recorrentes iniciativas de remodelar as cidades com fins privados e puramente empresariais e de transformar o espaço público em espaço de consumo e os cidadãos em meros consumidores, perguntamos: por que não ocupar os espaços com interferências questionadoras? Por que não constituir cidades onde a vida tenha mais qualidade e seja mais instigante e criativa?

Queremos gerar espaços de encantamento, suspensão e desvio. Fazer com que o sutil, o efêmero, apareça em gotas na cidade acelerada, que é cada vez mais levada a uma verticalização árida, ao concreto e ao asfalto, em suas pistas duplicadas e sem árvores (temos certeza de que a cidade não precisa ser assim).

Como artistas, buscamos dividir com os outros nossa forma de ver e de interagir com o mundo. Nossos trabalhos são recortes de várias realidades que percebemos ou criamos. Eles são essa ponte que pretende pontuar questões e tocar alguns pontos de conflitos que existem em várias esferas. Dizer sobre cor, superfícies, memória, alimentação, natureza, tempo, modos de perceber etc. nos campos político, ético e poético.

Para nós, interessa pensar as relações e transbordamentos possíveis entre as intervenções urbanas e as instituições de arte. No entanto, fazemos nosso trabalho circular principalmente em outros meios e de forma alternativa às instituições. As redes e circuitos independentes permitem uma circulação fluida dos trabalhos. A internet, com seu caráter rizomático e democrático, permite uma disseminação aberta das ações e o compartilhamento do que produzimos e propomos.

O Poro é formado por nós dois: Brígida+Marcelo, mas sentimos que nosso trabalho ganha vida própria, mais força e outras formas de existir sempre que outras pessoas se interessam em reproduzi-lo ou reexecutá-lo. Desde o início de nossa atuação, sempre estimulamos outras pessoas a participar de nossos projetos e de executá-los em outros contextos e espaços. Nossos trabalhos são para serem multiplicados e distribuídos!

Somos apaixonados pelo meio impresso e tudo que envolve as artes gráficas: a reprodutibilidade, a impressão (e os erros de impressão), os papéis, as tintas, as cores… e, por isso, entre os trabalhos que desenvolvemos, há uma série de obras que exploram o impresso e as possibilidades oferecidas pelas pequenas gráficas, tipografias, serigrafias e oficinas caseiras de sinalização. De lá saem nossas faixas, panfletos, cartazes, camisetas e outros trabalhos que vão para o espaço público criar pequenos deslocamentos e povoar seu horizonte simbólico de maneiras outras.

Os trabalhos do Poro são, em sua maioria, efêmeros. Por meio da documentação e dos registros podemos potencializar determinados aspectos dos trabalhos. Levar parte desses projetos a outros espaços e tempos, permitindo sua ressignificação ou servindo como referência para outros projetos e reflexões, além de possibilitar que mais pessoas possam experenciá-lo.

É um prazer enorme poder compartilhar com você este livro, que foi organizado como um panorama da nossa trajetória, a fim de estimular pensamentos e práticas sobre intervenção urbana, arte e espaço público. Para os textos desta publicação, convidamos grandes amigos que, de alguma forma e carinhosamente, estão envolvidos em nosso processo de trabalho. São pessoas de diferentes áreas do conhecimento e, cada um, com sua percepção e a partir de seu terreno de origem, trouxe um olhar diferenciado e poético sobre nossas ações e uma série de questões tangentes. Entre as contribuições, temos ainda uma imagem-presente.

Te convidamos para uma deriva pelas páginas, imagens e textos que se seguem.

Fique atento à cidade.